O imperador Ming contra-ataca

O imperador Ming contra-ataca

Mas afinal o que é isto da Crimeia? Quem é essa gente que se guerreia por um palmo de terra e o acesso ao mar? Bandeira contra bandeira, língua contra língua, ucranianos, russos, judeus e tártaros. Em que confins da Europa fica a Crimeia e será que faz fronteira com a Chuváquia ou com a Ruritânia?

Estou sentado numa esplanada em Lisboa, faz sol e a temperatura regista uns primaveris 21 graus centígrados. Quase consigo ver o Atlântico, de onde estou sentado, e no outro extremo da Europa há gente que se prepara para a guerra.

É sábado e deito um olho à minha rede social. Há gente que aproveitou para ir almoçar fora, gente que corre na meia maratona patrocinada pelo gigante da eletricidade (recentemente comprada pelos chineses), gente que joga no torneio ibérico de Padel, gente que experimenta os primeiros mergulhos no mar. Todos alheios à guerra da Crimeia.

Neste promontório europeu que é Portugal, olha-se mais para o mar do que para as estepes eurasiáticas e as redes sociais são um reflexo fiel disso mesmo. Se eu fosse um fanático ou dependente do facebook, ficaria seriamente vexado por ter conseguido uns meros cinco ‘likes’ na minha publicação desta manhã sobre as manifestações anti-Putin em Moscovo, enquanto um dos meus amigos arrebatou várias dezenas deles com as fotos dos seus cães Jack e Sebastião a passear na praia.

Ah as redes sociais. Cada um tem a sua, não há uma rede social mas múltiplas e complexas redes sociais. A minha é composta por gente muito diversa, portugueses e estrangeiros, mas muitos são ou foram meus alunos na universidade, gente entre os 20 e os 40 anos portanto. Nos últimos dias tenho-me dedicado a seguir o que diz a minha sobre a crise na Ucrânia e às vezes respondo. É impossível evitar esse ato que nos dias de hoje parece o epítome da cidadania. Não gosto do que leio. Veio-me à ideia o primeiro artigo que escrevi para FuturAbles e a fábula de Flash Gordon contra o imperador Ming.

A lógica maniqueísta dos bons contra os maus impera, dos maus contra os piores, do anti-americanismo irrefletido ou pavloviano contra os ‘double standards’ do passado. Até um certo ‘anti-ocidentalismo’ que verbaliza a revolta contra os abusos históricos cometidos em nome do Ocidente e dos seus interesses. A linguagem realista da inevitabilidade dos conflitos de interesse alastra, subrepticiamente e de forma pouco crítica, como arma de arremesso contra Obama e companhia e justificação das ações do Kremlin. A anexação da Crimeia é ilegal? Não importa, e o Kosovo, e o Iraque, e a doutrina Bush, e a Síria? E a Rússia, não tem direito à sua esfera de influência, aos seus estados satélite e a vergar quem quer que se ponha à frente? Não há sempre dois lados da história? Não estamos condenados à lógica do ‘with US or against US’? A vingança histórica do Ocidente contra o Ocidente está em marcha nas redes sociais.

E então o que é que eu respondo, quando respondo, nas redes sociais? Respondo que há sempre várias agendas em confronto e que eu estou sempre ao lado da mais inclusiva. Escrevia isto a uma aluna russa do curso de mestrado, numa troca de comentários em que notava que hoje, em Moscovo, se reuniram milhares de pessoas contra a guerra e contra Putin, com bandeiras da Rússia e da Ucrânia (e até havia uma bandeira do Azerbaijão). Ela retorquia que outros milhares se reuniram em solidariedade para com os russos da Crimeia. Respondo que as ações ilegais do passado não justificam as ações ilegais do presente. Também respondo que é preciso contrariar todos os militarismos e os abusos do poder, fugir dos maniqueísmos simplistas e afastar as soluções decimonónicas para as crises europeias. Respondo que a solução não está na fragmentação ad infinitum e na militarização das fronteiras mas na garantia de direitos, na transparência e na abertura política, no fortalecimento das sociedades civis e das formações identitárias complexas, no reforço da integração regional equilibrada e dos laços transculturais. Respondo que não há guerras frias inevitáveis.

                                                                  Marcos Farias Ferreira

About Marcos Farias Ferreira

Marcos Farias Ferreira (Guarda, Portugal, 1971) – Bachelor and Master in International Relations at the University of Lisbon (ULisboa), MScEcon in International Politics at the University of Wales Aberystwyth, PhD in Social Sciences at the University of Lisbon (ULisboa). Assistant Professor with tenure at the School of Social and Political Sciences (ULisboa) and Visiting Professor at Universidad ORT, Uruguay. He coordinates the Observatory for Human Security and has been working as volunteer with international NGOs in community development projects around the world. He is the author of two documentary feature films: La Toma/Takenland (2011) and Revolusión (2014) both shot in Nicaragua. He is now editing Islanders (2016) shot in the Yasawa Group, Fiji with the support of Global Vision International (GVI). ***** “Keep the company of those who seek the truth; run from those who have found it.” - Václav Havel

Leave a Reply - Cosa ne pensa?

%d bloggers like this: